A Bruxaria Saindo das Sombras

       No campo literário o Cristianismo teve seu apogeu por anos do passado. A impressão havia sido inventada e desenvolvida durante as perseguições, assim qualquer coisa publicada sobre o assunto da Bruxaria era escrita sob o ponto de vista da Igreja. Os livros posteriores tinham apenas esses primeiros trabalhos como material de referência, naturalmente então o preconceito contra a Antiga Religião era pesado. Na verdade foi apenas em 1921, quando a Dra. Margaret Alice Murray produziu o The Witch Cult of Western Europe (o culto das Bruxas na Europa ocidental) que alguém olhou para a Bruxaria sob uma luz não preconceituosa. Estudando os registros dos julgamentos da Idade Média, Murray (uma eminente antropóloga e professora de Egiptologia na Universidade de Londres) encontrou pistas que pareciam indicar que havia uma religião pré-Cristã definida e organizada por trás de toda a “sujeira” das alegações Cristãs. Ela ampliou sua visão em seu segundo livro, The God of Witches (O Deus das Feiticeiras), em 1931.


       Em 1951, na Inglaterra, as ultimas leis contra a Bruxaria foram finalmente revogadas. Isso limpou o caminho para que as próprias Bruxas falassem. Em 1954, Dr. Gerald Brousseau Gardner, em seu livro Witchcraft Today (Bruxaria Hoje), disse, com efeito: “o que Margaret Murray teorizou é verdade. A Bruxaria foi uma religião e de fato ainda é. Eu sei, porque eu sou um bruxo”. Ele contou como a Arte estava declinando, e talvez apenas se mantinha por um fio. Ficou bastante surpreso quando, como resultado da circulação de seus livros, começou a receber notícias de muitos covens da Europa, todos ainda praticando alegremente suas crenças. Mas esses covens sobreviventes haviam aprendido uma lição. Não queriam correr o risco de vir a público. Quem poderia garantir que as perseguições não começariam novamente?


       Por algum tempo, Gerald Gardner foi a única voz falando pela Arte. Ele clamava ter sido iniciado em um coven inglês, perto de Cristchurch, logo antes do início da Segunda Guerra Mundial. Estava excitado sobre o que encontrou. Ele havia passado toda a sua vida estudando magia religiosa e agora era parte dela. Queria correr e contar a todo mundo. Mas não tinha permissão para tal. Finalmente, depois de muito implorar, foi permitido que apresentasse algumas das verdadeiras crenças e práticas das Bruxas, tecendo-as em um romance: High Magic’s Aid (o apoio da Alta Magia), publicado em 1949. Levou mais cinco anos para persuadir o coven a deixá-lo dar o tratamento real. Complementando Witchcraft Today, seu terceiro livro foi publicado em 1959, intitulado The Meaning of Witchcraft.


       Com base em seus próprios estudos de religião e magia, Gardner sentia que o que ele encontrou como sendo os remanescentes da Bruxaria estava incompleto e, em certas partes, incorreto. Por milênios a Antiga Religião havia sido puramente uma tradição oral. Somente com o advento das perseguições, com a separação dos covens e a resultante perda de intercomunicação, que alguma coisa começou a ser escrita. Naquela época, quando as Bruxas tinham que se reunir nas sombras, os rituais foram finalmente escritos no que se tornou conhecido como O Livro das Sombras. O Livro era copiado e recopiado à medida que passava, através dos anos, de um líder de coven a outro. É natural que houvessem erros. Gardner pegou os rituais do coven ao qual pertencia – um grupo celta – e os escreveu conforme sentia que deviam ter sido. Essa forma então tornou-se conhecida como “Bruxaria Gardneriana”. Recentemente tem havido muitas teorias e acusações selvagens e admiráveis, desde “Gardner inventou a coisa toda” até “ele encarregou Aleister Crowley de escrever o Livro das Sombras para ele”. Tais acusações dificilmente merecem a dignidade de uma resposta, mas detalhes do trabalho preparatório de Gardner podem ser encontrados nos livros de Stewart Farrar: What Witches Do (o que as Bruxas fazem) e Eight Sabbats for Witches (oito Sabás para Bruxas).


       Entretanto, quaisquer que sejam os sentimentos que se nutre sobre Gardner, qualquer que seja a crença de uma pessoa sobre as origens da Wicca, todas as Bruxas da atualidade e as que serão devem a ele uma enorme dívida de gratidão por ter tido a coragem de levantar-se e falar pela Bruxaria. E por causa dele que podemos viver a Arte, em suas muitas formas, hoje.


       Na América, o primeiro Bruxo a “levantar e se reconhecer com tal” foi o Raymond Buckland. Naquela época não havia covens no EUA. Iniciado na Escócia (Perth) pela Grã-Sacerdotisa de Gardner, Buckland decidiu seguir os passos de Gardner, mas passou a cultuar da sua maneira. Logo Sybil Leek entrou em cena, seguida de Gavin e Yvonne Frost e outros indivíduos. Foi uma época excitante quando mais e mais covens, e diferentes tradições, vieram a pública ou, pelo menos, fizeram-se conhecidos. Hoje aquele que deseja ser um Bruxo tem uma vasta seleção na qual escolher: Gardneriana, Celta (e suas variações), Druidica, Saxã, Alexandrina, Algard, Nórdica, Irlandesa, Escocesa, Siciliana, Huna, etc.


       Que existam tantas, e tão variadas, tradições da Bruxaria é admirável. Todos nós somos diferentes. Não é de se surpreender que não haja uma religião que sirva para todas as pessoas. De certa maneira, então, não pode haver um único tipo de Bruxaria que sirva a todas as Bruxas. Alguns gostam de muitos rituais, enquanto outros prezam a simplicidade. Alguns são de origens Celtas, outros Saxões, Irlandeses, Italianos, ou qualquer um dos inúmeros outros. Com um grande número de tradições, então, será mais fácil para que todos encontrem um caminho que possam seguir com conforto.


       A religião percorreu um longo caminho desde suas humildes origens nas cavernas da pré-história. A Bruxaria percorreu um longo caminho. Cresceu para tornar-se uma religião do mundo inteiro, legalmente reconhecida.


       Hoje, através da América, não é difícil encontrar festivais abertos e seminários acontecendo em lugares improváveis, como acompanhamentos familiares e hotéis. As Bruxas aparecem na televisão e em programa de rádio; escreve-se sobre elas em jornais e revistas locais e nacionais. Existem diversos cursos de Bruxaria, e até mesmo nas forças armadas a Wicca é reconhecida como uma religião válida – Panfleto do Departamento do Exército nº 165-13 “Necessidades e Práticas Religiosas de Certos Grupos Selecionados: um Manual para Capelões” inclui instruções sobre os direitos religiosos de Bruxas, assim como de grupos islâmicos, sikh, herança cristã, herança indígena, japoneses e judeus.


       Sim, a Bruxaria tem um lugar em nossa história passada e terá um lugar bem definido no futuro.

WHATSAPP

W: (21) 98976-8262

  • Pinterest - White Circle
  • Instagram - White Circle

Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Faça parte de nossa lista VIP