A Magia do Povo

June 28, 2018

 

       A magia popular nasceu numa época de admiração. Dezenas de milhares de anos atrás, a natureza era uma força misteriosa. Pontos luminosos pairavam nos céus muito acima de nossas cabeças. Forças  invisíveis eriçavam os cabelos e iniciavam tempestades de areia. Água caía dos céus. Forças poderosas, inconcebíveis para aqueles antigos humanos, enviavam raios de luz a partir das nuvens, consumindo árvores em labaredas incontroláveis. Milagrosamente,  as mulheres geravam crianças.  O sangue era sagrado. Os alimentos eram sagrados. A água, a Terra, as plantas, os animais, o vento e tudo o mais que existia era imbuído de  poderes.

 

      A magia, assim como as religiões e as ciências, surgiram dos atos dos primeiros humanos que tentavam compreender, contatar e assumir algum controle sobre essas forças. Através de incontáveis séculos, eles examinaram o mundo natural a seu redor, descobrindo as propriedades físicas da água,  do fogo, das plantas e dos animais. Eles investigaram os misteriosos processos de nascimento e de morte, e ponderaram sobre o local para onde "iriam" os mortos.  Eles se encantaram com os complexos padrões dos minerais e das flores, e observaram as nuvens a mover-se sobre suas cabeças.

 

      Esses povos antigos eram diferentes de nós. Viviam na natureza e com a natureza, dependendo dela para tirar seu sustento, assim como para a proteção contra ameaças humanas e de outros animais. Quando colhiam grãos silvestres como alimento, aspiravam o rico perfume das flores ou coletavam cintilantes conchas na beira do oceano; eles deviam sentir que havia algo a mais nesses objetos do que sua mera forma física e sólida.

 

      Livres de qualquer doutrina materialista, suas mentes primitivas exploravam o mundo e descobriam um indescritível algo presente em todos os objetos e seres. Em objetos inanimados, a cor, a forma, o tamanho e o peso podiam ser considerados indícios de suas características não-físicas. O local onde um dado objeto era encontrado - ao lado de riachos, no topo de montanhas ou nas profundezas do solo - também podia servir de indicador para o tipo de energia a ser encontrado em seu interior.

 

      Os poderes aparentemente em ação sobre os seres humanos possuíam uma incrível diversidade. Um homem de grande bondade irradiava energia diferente da de outro inclinado à violência. A energia de um indivíduo forte e saudável era igualmente forte e saudável, ao passo que os adoentados possuíam reservas menores de uma qualidade inferior. Até mesmo os ossos dos mortos, bem como seus pertences pessoais (quando existentes), eram também considerados portadores de uma forma de energia.

 

      Consequentemente, os rituais foram desenvolvidos como um meio de contatar e utilizar a energia presente nos humanos, bem como as do mundo natural. Como, por que ou onde isso ocorreu é irrelevante; o que importa é que esse passo assinalou o surgimento da magia e da religião.

 

      Sim, religião. Especula-se atualmente que os humanos mais antigos possuíam uma determinada forma de reverência espiritual. Eles certamente praticavam magia, e em tempos mais remotos, ambas eram intimamente ligadas – como continuam a ser.

 

      Certos objetos apreciados por suas energias eram provavelmente utilizados para fins específicos. O âmbar, que em verdade não é um mineral mas sim a fossilização da resina do pinheiro, pode ter sido um dos primeiros materiais utilizados com finalidades mágicas. Imagens de ursos e entalhes geométricos em âmbar — geralmente perfurados para utilização como pingentes —, aparentemente eram usados como instrumentos de proteção ou para assegurar a caça nas eras mais primitivas.

 

      Pedaços de ferro meteórico deviam ser encarados com estupefação, especialmente se a queda de um meteoro fosse testemunhada. Flores utilizadas para fins rituais e de magia eram especialmente estimadas quando suas propriedades medicinais eram reconhecidas.

 

      Dessa forma, a magia popular lentamente desenvolveu-se num método de se utilizar objetos naturais de modo ritual para fins específicos e necessários, como proteção, fertilidade, partos seguros e caças bem-sucedidas.

 

      A certa altura, as energias humanas foram introduzidas na magia popular. Rituais complexos se desenvolveram como meio de integrar o mago à energia do objeto. De certo modo, esta era uma forma de comunicação. Gestos, ritmos, danças, posturas rituais, e, posteriormente, plantas alucinógenas, eram utilizados para unir adequadamente a energia humana à dos objetos apreciados.

 

      Todos os sistemas de magia e de religiões evoluíram a partir dessas antigas práticas. A magia tribal, assim como os rituais religiosos grupais, indubitavelmente surgiu da magia popular, mas a magia individual sobreviveu.

 

      Esses rituais simples continuaram a ser utilizados por muitos milhares de anos. À medida que as grandes civilizações ascendiam e declinavam - Suméria, Egito, Babilônia, Grécia, Creta e Roma -, a magia popular continuava a ser praticada, enquanto sacerdotes e sacerdotisas se deslumbravam com as religiões e com os sistemas de magia oficiais.

 

 

      Foi então que uma nova religião organizada, surgida no Oriente Médio após a morte de um profeta judeu, exercitou seu crescente poder político. A conversão oficial do Império Romano ao cristianismo, por volta do ano 325 E. C. (Era Comum), disseminou o cristianismo pelo mundo ocidental. À medida que país após país era convertido, muito dos antigos modos da magia popular foram esquecidos, amiúde sob ameaça de prisão ou morte.

 

      Alguns povos, relutantes em abandonar rituais milenares, alteraram-nos levemente para agradar à nova religião. A magia que não pudesse ser ao menos vagamente adequada

era praticada em segredo. Os dias dos velhos encantamentos e magias europeus como parte da vida cotidiana estavam encerrados.

 

      Os líderes da nova religião, determinados a exercer controle absoluto sobre todos os aspectos da vida humana, buscaram reprimir "crimes" como prever o futuro, curas psíquicas, criação de amuletos de proteção e talismãs para atrair amor, e tudo o mais que não se enquadrasse nas crenças de sua religião. Por todo o mundo "conhecido", a magia popular tornou-se uma memória fugidia, à medida que as cenas de massacres religiosos (praticados em nome de Deus) tornaram-se lugar-comum.

 

      Pouco depois, veio o advento do questionamento científico moderno. Enquanto os horrores das perseguições aos bruxos na Idade Média e no Renascimento desapareciam, os humanos passaram a investigar a natureza sob outra luz. O magnetismo, a medicina e a cirurgia, a matemática e a astronomia foram decodificadas e transportadas do reino da "superstição" para a ciência.

 

      Tendo esse conhecimento como base, teve início a Revolução Industrial, nos estertores do século XIX. Os humanos assumiram um certo controle sobre a terra através da mecanização. As máquinas logo superaram a religião na tarefa de suprimir a magia popular. Os humanos, não mais dependentes da terra para sobreviver, desenvolveram-se isolados de seu planeta.

 

      No século XX, uma série de guerras locais e mundiais rompeu com o que sobrara do velho modo de vida de milhões de europeus, americanos, asiáticos e habitantes das ilhas do

Pacífico. A magia popular, outrora a força vital de todos os humanos, jamais vivenciara período tão obscuro.

 

      Mas não desapareceu por completo. Onde quer que as máquinas e a tecnologia ainda não tenham invadido, a magia popular continua a existir. Em regiões da Ásia, África e no Pacífico Sul; nas Américas do Sul e Central; em certas áreas rurais da América do Norte como os Ozarks; no Havaí, e até mesmo em certas regiões da Europa.

 

      Nos anos 60, a magia popular ressurgiu. O movimento jovem nos Estados Unidos e na Inglaterra se rebelou contra os rígidos códigos sociais e os ideais de cunho cristão. Alguns jovens se voltaram para o budismo, o Zen, e outras correntes orientais. Outros se encantaram com o pouco que puderam aprender sobre encantamentos, magia, herbalismo, tarô, amuletos e talismãs. Inúmeros livros e artigos foram editados, revelando esse conhecimento outrora público a uma nova geração insatisfeita com suas vidas puramente tecnológicas.

 

      Livros de encantamentos e textos de magia, escritos por  pesquisadores ou praticantes de magia popular, eram adquiridos por pessoas cujos ancestrais deram origem a tais práticas. Livros como Mastering Witchcraft, de Paul Huson; The Complete Book of Magic and Witchcraft, de Kathryn Paulsen; e Practical Candleburning, de Raymond Buckland - bem como dezenas de outros - eram grandes sucessos. O redespertar havia se iniciado.

 

      Mas a repressão religiosa à magia popular permaneceu inalterada durante os anos 60. Foram lançados livros que declaravam ser esse interesse renovado em magia popular

(geralmente chamada de bruxaria) o anúncio do fim do mundo. Pregadores nos Estados Unidos queima